Para a cineasta Sophy Romvari, o longa de estreia Blue Heron (2025) chega menos como um começo do que como uma síntese. Ao longo de uma década dedicada a curtas-metragens, Romvari mapeou com precisão uma geografia emocional específica: o cruzamento entre história familiar, o deslocamento da migração e a fragilidade intrínseca da memória. Seu trabalho trata o passado como algo simultaneamente vital e inalcançável — uma textura que se sente através da tela, mas que nunca se consegue segurar nas mãos.
Filha de imigrantes húngaros que se estabeleceram em Vancouver com a queda da Cortina de Ferro, Romvari ocupa uma posição singular: é a única integrante da família nascida no Canadá. Essa distância em relação à terra de origem se soma a uma linhagem cinematográfica notável, ainda que discreta. Seu pai se formou como diretor de fotografia, e seu avô foi um renomado diretor de arte que trabalhou com nomes como István Szabó. Essas identidades profissionais, porém, costumavam ficar obscurecidas pela realidade prosaica da vida doméstica; para Romvari, a câmera era menos um instrumento de ofício e mais uma testemunha do cotidiano, uma forma de "tocar à distância".
Em seus curtas anteriores, como Nine Behind e It's Him, Romvari usou o cinema para estabelecer conexões com familiares que estavam física ou emocionalmente ausentes. O novo longa amplia esses dispositivos estruturais, combinando a intimidade delicada de seus documentários híbridos com um enquadramento narrativo mais abrangente. Blue Heron funciona como um registro cumulativo — a prova de que, para Romvari, o ato de filmar não diz respeito apenas à preservação, mas à travessia pelo luto e pelas lacunas que definem a passagem de uma família pelo tempo.
Com reportagem de MUBI Notebook.
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