Olivier Assayas nunca foi um cineasta que se intimidasse diante das estruturas labirínticas dos sistemas globais. Em seu trabalho mais recente, The Wizard of the Kremlin, Assayas direciona suas lentes para a fabricação do Estado russo moderno. Adaptado do romance de Giuliano da Empoli, o filme é uma meditação extensa, de quase três horas, sobre a alquimia do poder — com Paul Dano no papel de Vadim Baranov, um produtor de TV que se transforma em estrategista político, e, numa escolha que beira o surreal, Jude Law como um jovem Vladimir Putin.

A narrativa é enquadrada pela perspectiva de um narrador acadêmico, interpretado por Jeffrey Wright, que visita Baranov em sua propriedade isolada. Esse recurso permite a Assayas traçar a trajetória de Baranov desde uma infância confortável no funcionalismo soviético até seus anos de formação no caótico cenário midiático do pós-Guerra Fria. É nesse ambiente que Baranov — fã tanto de alta cultura quanto de Tupac Shakur — é arrancado do mundo "escandalosamente espalhafatoso" da televisão pelo oligarca Boris Berezovsky e lançado nos corredores "discretamente espalhafatosos" do Kremlin.

Assayas trata a ascensão da era Putin não como mera sequência histórica, mas como um projeto midiático. O filme oscila entre a cinebiografia convencional e a paródia autoconsciente, explorando uma oposição central: um Ocidente obcecado pelo acúmulo de capital versus um Oriente movido pelo exercício bruto do poder. Embora as oscilações de tom possam deixar parte do público à deriva, o foco permanece fixo na "feitiçaria" necessária para transformar os impulsos criativos de um produtor de televisão nos mitos fundadores de um regime.

Com reportagem de Little White Lies.

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