Na remota reserva de Primeiras Nações de Shamattawa, no norte de Manitoba, documentar a própria história raramente é um trabalho solitário. Quando Seth e Peter Scriver começaram a produzir Endless Cookie, o plano original era direto: registrar sete histórias da vida de Pete Scriver. Mas a realidade logística da casa dos Scriver — oito crianças do lado de dentro, vinte e seis cachorros do lado de fora — logo se impôs sobre qualquer ambição formal de produção.
O processo de gravação se transformou num estudo sobre a persistência da vida doméstica. Cada tentativa de capturar uma narrativa limpa era perfurada pelo ruído ambiente de uma casa lotada: o ronco de uma geladeira velha, o som dos videogames atravessando paredes finas e as entradas frequentes e não roteirizadas de familiares. O que começou como uma série de frustrações técnicas acabou se revelando o verdadeiro tema do filme. Os Scriver perceberam que as interrupções não eram obstáculos à história — eram a própria textura dela.
Essa mudança de perspectiva transformou Endless Cookie de uma história oral convencional em um projeto vibrante de nove anos de animação e retrato doméstico. Ao abraçar as divergências narrativas, os cineastas conseguiram replicar a intimidade específica de estar sentado à mesa da cozinha. O resultado funciona como um testemunho de que os retratos mais autênticos costumam estar nos fragmentos e distrações que um documentário mais tradicional teria deixado na sala de edição.
Com reportagem de MUBI Notebook.
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