O "toque de Lubitsch" é um caso raro de artifício publicitário que ascendeu à condição de filosofia. Cunhada nos anos 1920 por Hal Wallis, então agente de publicidade da Warner Bros., a expressão tinha como objetivo vender a obra de Ernst Lubitsch a um público americano em expansão. Contudo, como nos lembra uma nova retrospectiva, o termo sobreviveu às suas origens comerciais e se consolidou como sinônimo de um tipo específico de inteligência cinematográfica — uma que privilegiava o engenho e a graça visual em detrimento da mão pesada de seus contemporâneos.

Definir esse toque tornou-se um exercício perene para a crítica. Enquanto alguns o equiparam simplesmente a "sofisticação", outros enxergam algo mais metafísico nos enquadramentos de Lubitsch. A romancista Siri Hustvedt observou certa vez que o dom do cineasta residia em sua capacidade de evocar o sentido tátil por meio da sugestão. Em obras-primas como Trouble in Paradise (1932) e Cluny Brown (1947), Lubitsch dominou a arte do não dito, usando a câmera para evocar o jogo e o prazer da sexualidade humana sem jamais esbarrar nos rígidos códigos morais da época.

A sensibilidade de Lubitsch foi forjada no universo teatral do Deutsches Theater de Max Reinhardt, em Berlim, onde ele começou como ator aos dezenove anos. Essa formação em performance de conjunto e em senso espacial de ritmo lhe permitiu tratar a tela não apenas como superfície para uma história, mas como mecanismo de uma interação delicada, quase invisível, com a imaginação do espectador. Mesmo um século depois, sua obra permanece como testemunho de uma ideia central do cinema: o que se sente costuma ser mais poderoso do que o que se vê.

Com reportagem de Criterion Daily.

Source · Criterion Daily