Durante décadas, as ciências biológicas se apoiaram fortemente na metáfora da máquina — um sistema determinístico governado pela seleção natural. Mas Stuart Kauffman, pioneiro da teoria da complexidade, sustenta que esse modelo ignora o traço mais definidor da biosfera: sua criatividade inerente. Em conversa com Nathan Gardels, da Noema, Kauffman sugere que a vida não se limita a sobreviver dentro de restrições ambientais; ela se auto-organiza em formas fundamentalmente novas e "não antecipáveis".

Esse processo de emergência ocorre quando sistemas existem "longe do equilíbrio", onde um fluxo constante de energia permite a formação de ordem espontânea. Kauffman aponta os conjuntos "autocatalíticos" — interações espontâneas entre moléculas — como a origem da ordem viva. Diferentemente de um dispositivo projetado, que segue um projeto rumo a um fim predeterminado, a evolução biológica avança para o que Kauffman chama de "possível adjacente". Trata-se de um domínio de estados inovadores que se situam logo além do horizonte atual, à espera das condições certas para se manifestar.

A implicação da "Terceira Transição na Ciência" proposta por Kauffman é um golpe de humildade para a engenharia moderna. Se o futuro é de fato aberto e não determinístico, a biosfera não pode ser reduzida a um conjunto de equações previsíveis. A emergência, nessa perspectiva, não é um problema a ser resolvido com mais dados, mas uma propriedade fundamental de um universo que se reinventa constantemente.

Com reportagem de Noema Magazine.

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