Entramos numa era em que a beleza física deixou de ser loteria biológica para se tornar projeto técnico. Numa sociedade em que o corpo pode ser permanentemente renegociado — a laser, com preenchimentos, com procedimentos de toda ordem —, as barreiras para certo tipo de perfeição praticamente desapareceram. Nunca tantas pessoas foram tão objetivamente atraentes, e ainda assim esse excedente de beleza começa a produzir um tipo peculiar de exaustão.
O problema está na homogeneização do ideal. Quando todos recorrem às mesmas ferramentas para alcançar os mesmos padrões, o que se perde é o traço individual, trocado por uma harmonia algorítmica. O chamado "rosto de Instagram" — definido por uma simetria e uma lisura específicas — sugere um mundo em que todos estão derretendo num único molde impecavelmente curado. Quando a beleza se torna mercadoria que se compra e se mantém, ela perde a capacidade de surpreender ou de nos comover.
O desejo pelo imperfeito
Essa saturação estética está alimentando um novo desejo pelo não polido. Num cenário de simetria fabricada e incessante, o irregular e o imperfeito começam a parecer uma forma de alívio — ou mesmo de rebeldia. É possível que estejamos prestes a testemunhar um retorno à "feiura", não como fracasso de cuidado pessoal, mas como reafirmação necessária da variedade humana numa era de conformidade digital e médica.
Com reportagem de Dagens Nyheter.
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