A recente intensificação dos ataques militares dos Estados Unidos e de Israel contra alvos iranianos produziu um resultado que é, possivelmente, o inverso do objetivo geopolítico pretendido. Embora os bombardeios tenham sido concebidos para degradar as capacidades nucleares e militares do Irã, a infraestrutura física permanece em grande parte intacta — assim como a capacidade do regime de desestabilizar os mercados globais de energia pelo Estreito de Ormuz. O dano mais significativo, na verdade, foi infligido ao espaço político interno para reformas.

Segundo o acadêmico Reza Aslan, a intervenção estrangeira inviabilizou, na prática, a possibilidade de uma oposição doméstica substituir o regime atual. Ao enquadrar o conflito como defesa existencial da soberania nacional, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) conseguiu se posicionar como escudo indispensável do Estado. Essa consolidação de poder sugere que o Irã caminha rumo a um modelo de governança observado em países como Egito, Myanmar e Paquistão, onde o aparato militar se torna a arquitetura permanente e subjacente do Estado — independentemente da face civil que apresente ao mundo.

Essa virada marca um ponto sombrio para os movimentos de protesto que ganharam fôlego no início deste ano. Em janeiro, a indignação popular diante da repressão do regime levou muitos a acreditar que a era da República Islâmica se aproximava do fim. No entanto, a narrativa de "morte e destruição vindas do céu" permitiu que elementos da linha-dura sufocassem a dissidência sob a bandeira da dignidade nacional. Para os reformistas que um dia esperaram transformar o sistema por dentro, a janela de mudança não apenas se estreitou — foi trancada justamente pelas pressões externas que pretendiam enfraquecer o regime.

Com reportagem de Noema Magazine.

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