A Mecânica Fragmentada do Trauma em Departures

Em sua mais recente colaboração, Departures, a dupla de cineastas Lloyd Eyre-Morgan e Neil Ely tenta cartografar o terreno acidentado do trauma por meio de uma lente não linear. O filme começa pelo fim, operando sob a premissa de que avançar exige um olhar recursivo sobre o passado. Essa escolha estrutural estabelece o tom experimental daquilo que é, em essência, um drama hipersexual centrado em Benji (interpretado pelo próprio Eyre-Morgan) e Jake (David Tag) — dois homens cujos encontros em Amsterdã funcionam como laboratório de dinâmicas de poder cambiantes e exploração de BDSM.

A estética do filme se apoia fortemente numa certa aspereza britânica, o que torna inevitáveis as comparações com Trainspotting, de Danny Boyle. Onde a obra de Boyle, porém, se ancorava numa urgência cultural específica, Departures por vezes resvala num registro performático que beira a paródia. Os diretores recorrem a recursos multimídia — ilustrações sobrepostas a quadros-chave — para injetar uma ludicidade de acento indie. Essa energia de "fazemos o que queremos" confere ao filme sua identidade mais distinta, ainda que ecoe estilos de montagem recorrentes na produção queer contemporânea.

No fim das contas, as ambições de profundidade emocional do filme são prejudicadas pela execução. Embora o ciclo de dominação e submissão entre Benji e Jake seja apresentado com franqueza sem meias palavras, o percurso narrativo espelha a metáfora de um voo forçado a um pouso de emergência. O filme tenta chegar a uma conclusão contundente na interseção entre sexo e cicatrizes psicológicas, mas se vê sobrevoando a pista em círculos — travado por um tom que prioriza a bravata estilística em detrimento de uma ressonância emocional sustentada.

Com reportagem de Little White Lies.

Source · Little White Lies