Em sua série mais recente, Second Sleep, a artista Maria Britton explora a fronteira fluida entre pintura e escultura a partir de um meio incomum e ao mesmo tempo íntimo: lençóis descartados. Essas "Draperies", como ela as chama, não são simplesmente penduradas; são sobrepostas, plissadas e manipuladas com precisão em formas abstratas que evocam a presença arquitetônica de cortinas sem abrir mão da vulnerabilidade tátil da roupa de cama.
O título da exposição faz referência a um fenômeno histórico praticamente apagado pela Revolução Industrial. Antes da onipresença da luz artificial, o descanso humano costumava se dividir em dois períodos distintos — um "primeiro sono" seguido de algumas horas de vigília e, depois, um "segundo sono". Esse intervalo noturno era um espaço liminar dedicado à oração, à reflexão criativa ou a pequenas tarefas domésticas silenciosas. O trabalho de Britton busca resgatar esse ritmo perdido, posicionando seus têxteis como portais para uma época em que as fronteiras entre produtividade e repouso eram mais permeáveis.
Ao reaproveitar materiais que já esgotaram sua utilidade convencional, Britton dialoga com questões mais amplas de trabalho, gênero e o valor atribuído ao doméstico. Os lençóis, outrora espaços de intimidade e exaustão, ganham nova vida por meio de um processo que privilegia o fazer lento e deliberado em detrimento do ritmo frenético da produção contemporânea. Com isso, Britton convida a uma reflexão sobre o que foi sacrificado às pressões da eficiência moderna — e o que ainda pode ser recuperado nas dobras do passado.
Com reportagem de Hyperallergic.
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