Na Filadélfia, a disputa em torno da memória histórica saiu dos tribunais e chegou à orla. Depois que o governo federal removeu, no início deste ano, exposições que documentavam a realidade da escravidão em um parque histórico nacional, a cidade respondeu com um processo judicial e uma nova onda de arte pública. No centro desse atrito cultural está Ona Judge, que em 1796 fugiu da casa de George e Martha Washington para conquistar a própria liberdade.

Como parte da edição inaugural do festival ArtPhilly, a artista conceitual indira allegra, radicada em Nova York, vai apresentar Sail Through This to That em 28 de maio no Spruce Street Harbor. A instalação é composta por três grandes velas de escuna — referência direta à rota marítima que Judge usou para escapar rumo a New Hampshire. A obra chega enquanto os Estados Unidos se aproximam do 250º aniversário da Declaração de Independência, marco que se tornou cada vez mais um ponto de tensão sobre como instituições nacionais conciliam diretrizes presidenciais com a narrativa histórica da era dos fundadores.

O monumento de allegra carrega múltiplas camadas de ressonância contemporânea. As velas incorporam a estética neon associada a Rem'mie Fells, uma mulher negra transgênero de 27 anos e aspirante a estilista, assassinada na Filadélfia em 2020. Ao entrelaçar a fuga de Judge no século 18 com uma homenagem a uma vítima moderna de violência, a instalação transforma o porto não apenas em um lugar de passagem, mas em um espaço de acerto de contas com a precariedade persistente da vida negra no projeto americano.

Com reportagem de Hyperallergic.

Source · Hyperallergic