No loft do Soho onde vive e trabalha há mais de cinco décadas, Joan Semmel segue sendo uma presença marcante. Aos 93 anos, a pintora continua enfrentando as complexidades do corpo e os mecanismos do olhar. Perto da entrada de seu ateliê na Spring Street está pendurado Mirrored Screen (2005), um autorretrato a óleo que captura um momento tecnológico específico: o clarão branco explosivo de uma câmera compacta refletido num espelho.
A obra faz parte de uma série que Semmel iniciou duas décadas atrás nos vestiários de uma academia na Bleecker Street. Intrigada pelo narcisismo crescente da cultura popular, ela decidiu documentar artistas e bailarinas em seus estados mais despojados. Para evitar a rigidez de um retrato posado, Semmel se posicionava atrás de suas modelos e apontava a lente para os reflexos delas no espelho. As imagens resultantes, registradas em filme, frequentemente incluíam a própria Semmel — nua, segurando a câmera —, uma inclusão acidental mas premonitória que antecipou a linguagem visual autorreferente do século 21.
Essa interseção entre o físico e o mecânico há muito define a trajetória de Semmel. Ao se colocar dentro do enquadramento, ela transformou o ato de observar em ato de participar. Hoje, de pé diante de suas obras mais antigas, a artista de cabelos prateados estabelece um diálogo vivo com sua versão mais jovem. Sua prática permanece como testemunho da resistência da tradição figurativa, mesmo enquanto as ferramentas que usamos para nos ver continuam a evoluir.
Com reportagem de Hyperallergic.
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