O cinema sempre funcionou como espelho do poder, mas dois episódios recentes indicam que o meio está sendo cada vez mais remodelado por pressões externas — uma geopolítica, outra comportamental. Na Índia, o Central Board of Film Certification bloqueou a estreia nos cinemas de The Voice of Hind Rajab, docudrama indicado ao Oscar dirigido por Kaouther Ben Hania. O filme, que narra a tentativa trágica de salvar uma menina palestina de cinco anos, teria sido barrado para evitar desgaste nas relações diplomáticas cada vez mais estreitas entre a Índia e Israel sob o governo do primeiro-ministro Narendra Modi.

Enquanto a censura estatal administra o que chega às telas, os gigantes do streaming lidam com o modo como o público consome o conteúdo. Dan Lin, chefe de cinema da Netflix, publicou uma negativa formal sobre um suposto memorando interno que orientaria roteiristas a "reafirmar" pontos da trama para espectadores distraídos. A controvérsia ganhou força depois de um quadro satírico de Conan O'Brien na cerimônia do Oscar, que ironizou os estúdios por presumirem que o público está ocupado demais com o celular para acompanhar uma narrativa.

A negativa, porém, contrasta com relatos de nomes de peso da indústria. No início deste ano, Matt Damon afirmou que, durante a produção de The Rip, a Netflix pediu que a trama fosse reiterada diversas vezes nos diálogos. Essa filosofia da "segunda tela" sugere uma rendição silenciosa à atenção fragmentada da era digital, em que a experiência cinematográfica deixou de ser imersiva para se tornar pano de fundo — subordinada à tela principal na mão do espectador.

Com reportagem de MUBI Notebook.

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