A Bienal de Veneza há muito funciona como palco central da diplomacia cultural — um espaço onde pavilhões nacionais operam como expressões concentradas de soft power e prestígio. Durante décadas, o processo de seleção americano seguiu um rito previsível e rigoroso de avaliação por pares: museus submetiam propostas a um painel de especialistas convocado pelo National Endowment for the Arts. Para a edição de 2026, no entanto, o Departamento de Estado abandonou esse roteiro, contornando as instituições tradicionais e delegando a supervisão da exposição do escultor Alma Allen a uma organização recém-criada, a American Arts Conservancy.
Essa guinada estrutural abalou o establishment artístico americano. A Conservancy, liderada por sua fundadora baseada na Flórida, Jenni Parido, não possui histórico relevante em curadoria de grandes museus — um desvio significativo em relação a um sistema que historicamente privilegiava curadores consagrados e supervisão acadêmica. Embora o Departamento de Estado mantenha a prerrogativa legal de gerir suas próprias exportações culturais, a decisão de entregar o comando a uma organização sem raízes institucionais profundas gerou acusações de "oportunidade desperdiçada", nas palavras recentes de Robert Storr, ex-diretor da Yale School of Art.
Allen, por sua vez, permanece em grande medida alheio à disputa burocrática. Conhecido por esculturas de grande escala e forte apelo tátil, que transitam entre a forma orgânica e a precisão industrial, o artista demonstrou mais preocupação com as limitações físicas do pavilhão do que com a política por trás de sua indicação. Ainda assim, o atrito persiste: relatos indicam que vários artistas recusaram participar sob a nova gestão. Com a Bienal de 2026 se aproximando, a controvérsia funciona como lembrete de que, no universo da diplomacia cultural de alto risco, a engrenagem da seleção costuma ser tão escrutinada quanto a própria arte.
Com reportagem de ARTnews.
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