Jia Zhang-Ke, o principal cronista da acelerada transformação social chinesa, publicou recentemente no Weibo um vídeo que funciona como uma galeria de espelhos digitais. Com o uso de IA generativa, o diretor inseriu versões mais jovens e atuais de si mesmo nos quadros de seus próprios filmes, criando um diálogo sintético através do tempo. Para um autor cuja obra sempre foi um bastião do realismo cru, a passagem para imagens geradas por inteligência artificial sugere um novo — e talvez desconfortável — capítulo em sua carreira.
O gesto acendeu o debate sobre a compatibilidade entre a sensibilidade do cinema autoral e as tecnologias emergentes. O próprio Jia se mostra imperturbável e argumenta que o foco deve permanecer na agência humana, não na ameaça de substituição. "Não me preocupo com a possibilidade de a tecnologia 'substituir' o cinema", escreveu, acrescentando que o que realmente importa é como as ferramentas são utilizadas. Ainda assim, como observa o pesquisador Michael Berry na Los Angeles Review of Books, há uma ironia cortante no fato de um diretor conhecido por interrogar direitos trabalhistas e devastação ambiental "apostar todas as fichas" numa tecnologia frequentemente criticada por suas próprias práticas laborais opacas e alta demanda energética.
Enquanto o mundo cinematográfico mais amplo segue voltado à preservação — como demonstra a recente aquisição, pela Cinema Guild, de filmes restaurados dos mestres portugueses António Reis e Margarida Cordeiro —, o olhar de Jia está fixo na fronteira. Sua carreira sempre foi uma investigação das mudanças "inquietantes" na sociedade chinesa. Num momento em que o país consolida sua posição dominante na corrida global pela IA, o experimento de Jia funciona como microcosmo de um acerto de contas cultural mais amplo, sugerindo que o futuro do cinema talvez resida na capacidade do autor de habitar a máquina, em vez de resistir a ela.
Com reportagem de Criterion Daily.
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