Marina Abramović voltou a Berlim para sua primeira grande individual na cidade desde os anos 1990, ocupando o Gropius Bau com a exposição intitulada "Balkan Erotic Epic". Mais do que uma retrospectiva, a mostra é uma exploração visceral do corpo como território de fricção política e espiritual. Co-curada por Agnes Gryczkowska e Jenny Schlenzka, a instalação entrelaça performances históricas com trabalhos inéditos, posicionando o erótico não como provocação, mas como motor fundamental de fertilidade, mortalidade e transformação.

A exposição se apoia fortemente no folclore balcânico, traduzindo rituais ancestrais para um vocabulário contemporâneo de filme, escultura e ação ao vivo. No trabalho em vídeo Tito's Funeral (2025), Abramović registra mulheres em estado de transe de luto comunal, cujo bater rítmico no peito funciona como ponte entre o luto pessoal e a história nacional. Essa tensão entre o individual e o coletivo é um motivo recorrente, sublinhado por performances ao vivo que incluem procissões de bandas de metais e as vocalizações tradicionais de Svetlana Spajić.

Ao enquadrar o erótico pela lente da intensidade ritual, a mostra desafia o espectador a olhar além da superfície da performance. Apresenta um mundo em que humor e lamentação coexistem, e onde os limites do eu são constantemente testados contra o peso da herança cultural. No Gropius Bau, o corpo permanece como meio primordial de Abramović — um recipiente para testar os limites da resistência e a persistência da memória.

Com reportagem de ARTnews.

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