Em Miroirs No. 3, o diretor alemão Christian Petzold dá continuidade à investigação que atravessa toda a sua carreira sobre a arquitetura psicológica dos deslocados. O filme abre com uma ruptura violenta: um acidente de carro que mata um jovem e deixa sua namorada, Laura (interpretada por Paula Beer, colaboradora frequente de Petzold), estranhamente intacta. Em vez da esperada descida ao luto, Laura emerge dos destroços com uma compostura lúcida e gélida. Para uma personagem até então definida por um sofrimento interno e não verbalizado, a catástrofe funciona como uma espécie paradoxal de ancoragem, lançando-a num estado de razão cristalina.

A narrativa se desloca para um registro mais doméstico, embora não menos perturbador, quando Laura é acolhida por Betty (Barbara Auer), uma mulher mais velha que vive numa casa de campo isolada. A hospitalidade oferecida é imediata e sem perguntas, gerando uma tensão enraizada justamente no que não se explica. Enquanto Laura paira pela casa de Betty como uma presença espectral, Petzold mantém a mecânica do acidente — e a possível culpa de Laura — envolta nas águas frias e límpidas da ambiguidade que se tornaram sua assinatura estilística.

A obra de Petzold frequentemente opera como um diálogo com outras formas de arte, e aqui a referência central é a suíte para piano Miroirs, de Maurice Ravel. O filme toma seu título do terceiro movimento, uma peça que Laura ensaia para um recital. Assim como a música, o filme ronda temas de reflexo e identidade fluida sem jamais resvalar na homenagem derivativa. Trata-se de um estudo rigoroso e engenhosamente estruturado sobre como habitamos os espaços deixados por quem perdemos — e se algum dia de fato abandonamos a cena do acidente.

Com reportagem de Little White Lies.

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