Para a cineasta argentina Lucrecia Martel, o cinema é menos um meio de contar histórias do que uma ferramenta de reestruturação cognitiva. Num mundo marcado pela incerteza — onde redes de proteção social como saúde e educação são frequentemente precárias —, Martel defende que a função primordial do filme deveria ser desafiar e remodelar a maneira como percebemos o ambiente ao redor. "Não podemos adiar o repensar dos nossos modos de pensar, dos nossos hábitos e das nossas ideias", observou recentemente, situando sua obra como uma ruptura necessária com o status quo.
Neste fim de semana, o Berkeley Art Museum and Pacific Film Archive (BAMPFA) inaugura Lucrecia Martel: Un destino común, retrospectiva realizada em conjunto com a residência da cineasta na UC Berkeley. A programação começa com uma sessão em 35 mm de seu longa de estreia, La Ciénaga (O Pântano), de 2001. Ambientado em Salta, cidade natal de Martel no norte da Argentina, o filme traça um retrato discursivo de uma família burguesa durante um verão sufocante. É uma obra que notoriamente dispensa uma narrativa central em favor de uma atmosfera de "tensão elástica", na qual a ameaça de desastre está sempre presente, mas nunca se concretiza de fato.
A estética de Martel se define pela recusa em hierarquizar eventos específicos, criando um campo visual não hierárquico que obriga o espectador a navegar o quadro sem guia. Essa ausência de ênfase espelha a desorientação da vida real e exige uma forma de olhar mais ativa, mais apreensiva. Ao desmontar as hierarquias tradicionais da imagem, Martel sugere que talvez seja possível desmontar também as estruturas rígidas das nossas próprias realidades sociais e políticas.
Com reportagem de Criterion Daily.
Source · Criterion Daily



