Durante anos, os boletins meteorológicos diários que David Lynch publicava no YouTube funcionaram como um ritual estranho e reconfortante — uma narração anasalada, com sotaque do Meio-Oeste americano, sobre o céu de Los Angeles que soava ao mesmo tempo banal e profundamente intencional. Em um novo mix de trilha sonora para o MUBI Notebook, esses boletins se convertem em porta de entrada para o "lynchiano" inquietante. O mix abre com um despacho de 25 de março, data que coincidiu com o próprio processo de escrita do autor anos depois, criando o que ele descreve como um "túnel entre tempos" que conecta o passado de Lynch ao nosso presente.
Essa sensação de deslocamento temporal ganhou nova camada com uma exposição da obra de Lynch na Pace Gallery, em Berlim. Ali, sob a luz vermelha de uma grande vitral colorido, a atmosfera dos primeiros curtas experimentais do cineasta, como The Alphabet (1969), parecia menos um artefato histórico e mais um ambiente vivo. A mostra evidenciou os meios táteis e frequentemente negligenciados que Lynch habitou — pintura, escultura e som —, lembrando que sua visão nunca se limitou à tela de cinema.
O mix em si funciona como um levantamento sonoro desses espaços mentais. Ao entrelaçar a voz de Lynch com os zumbidos industriais e as texturas de dream-pop de sua filmografia, ele captura a frequência específica em que o cineasta sintonizava: um mundo onde o clima em Berlim pode, de repente, espelhar um dia de primavera em Los Angeles de quatro anos atrás. É um lembrete de que a obra de Lynch segue como um subconsciente compartilhado, um lugar onde temos a sorte de flutuar juntos pela escuridão.
Com reportagem de MUBI Notebook.
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