Um romance fora de qualquer moldura
Wuthering Heights, de Emily Brontë, sempre foi um corpo estranho — uma obra que resiste às próprias categorias que ajudou a definir. Desde sua publicação em 1847, sob o pseudônimo Ellis Bell, o romance apresenta um labirinto estrutural e moral que muitos críticos, de ontem e de hoje, têm dificuldade em percorrer. Diferente das narrativas vitorianas mais palatáveis da época, a história de Brontë descartou pilares tradicionais como sacrifício e redenção religiosa em favor de uma exploração crua, quase niilista, da violência e do desejo obsessivo.
Escândalo na recepção
A recepção inicial foi notoriamente turbulenta. Como observa Lucasta Miller em The Brontë Myth, o consenso da época classificou a obra como "imperdoavelmente grosseira". Era um livro que os vitorianos mais nervosos achavam impossível conciliar com os costumes sociais do período, embora alguns provocadores, como Algernon Charles Swinburne, tenham defendido justamente sua recusa em se conformar. O escândalo só se aprofundou quando se revelou que os "irmãos Bell" eram, na verdade, as irmãs Brontë, solteiras — o que levou Charlotte a publicar uma defesa póstuma do "dom criativo" de Emily, uma força que ela descreveu como algo que domina a escritora, e não o contrário.
O desafio permanece nas telas
Com uma nova adaptação da diretora Emerald Fennell prevista para 2026, o legado abrasivo do romance permanece tão potente quanto sempre. A gramática idiossincrática de Brontë e seus personagens irredimíveis continuam a desafiar o impulso cinematográfico de suavizar ou sentimentalizar as charnecas. O poder duradouro de Wuthering Heights reside em sua recusa a ser "purificado" — erguendo-se como um monumento aos aspectos mais sombrios e turbulentos da psique humana, que a narrativa contemporânea ainda tem dificuldade em conter.
Com reportagem de MUBI Notebook.
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