A aguardada cinebiografia Michael chega como uma produção suntuosa e meticulosamente construída, ancorada na performance de Jaafar Jackson, que beira o sobrenatural. Jackson, sobrinho do falecido ícone do pop, incorpora a fisicalidade e a voz do tio com uma precisão que eleva o filme muito acima da mera imitação hollywoodiana. Trata-se, por qualquer critério, de um triunfo técnico de direção de arte e atuação.

Ainda assim, a arquitetura narrativa do filme parece desenhada para atender a um público específico: a base de fãs devotos que rejeitou os depoimentos perturbadores de documentários como Leaving Neverland. Ao contornar a gravidade das acusações de pedofilia que definiram os últimos anos de Jackson e sua reputação póstuma, o longa funciona menos como uma biografia equilibrada e mais como um monumento de alta fidelidade a um legado cuidadosamente curado.

Ao priorizar o apuro estético em detrimento de verdades incômodas, Michael evidencia uma tendência crescente no gênero das cinebiografias chanceladas por espólios. O filme oferece uma experiência sedutora e imersiva para quem busca resgatar o mito do Rei do Pop, mas deixa as perguntas mais desconfortáveis sobre sua história inteiramente fora de cena — preferindo a hagiografia a um retrato completo do homem.

Com reportagem de Dagens Nyheter.

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